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  • SEGUNDA FASE

Dia 3: 27/02/21 | SÁBADO



No terceiro dia de pesquisa, fomos em busca de Gaivota, no bairro da Cohab. Gaivota é uma mulher trans que conhecemos durante a pesquisa do filme Estou me guardando… Filmamos algumas cenas com ela, muito boas, mas que acabaram não entrando no corte final. Ela não mora mais na casa que vivia antes, mas a mãe dela continua no prédio de esquina. As pessoas que estavam por ali nos ajudaram a encontrar a nova casa dela, virando a esquina. A rua está asfaltada e o bairro cresceu bastante. Está diferente. Enquanto tentavamos descobrir qual era a casa de Gaivota, ela apareceu e nos convidou pra entrar.


Gaivota contou como está difícil sua realidade. Cuscuz, seu companheiro, morreu de ataque no coração. Ela sente sua falta, apesar dos defeitos dele. Ela abriu um bar, mas acabou fechando por conta da pandemia. Nesse tempo, se sustentava trabalhando como faxineira na casa de uma mulher que paga um valor mais baixo pra ela por ser trans. A patroa pegou covid e a dispensou até segunda ordem. Gaivota não sabe como vai sobreviver: o problema é o aluguel, que é muito caro: 200 reais por mês. Ela não sabe como vai conseguir esse dinheiro, mas tem fé que vai dar tudo certo.


Durante a pandemia, o governo do estado adotou uma série de medidas de restrição e prevenção em locais de grande circulação, como o Parque das Feiras. Uma delas foi proibir manequins nos corredores do shopping.


Lane, empreendedora natural de Surubim, teve a ideia de colocar uma manequim viva para desfilar nos corredores do Parque das Feiras. Sua loja chama-se Missbelula.



Lane tem 39 anos e mora com a família em Surubim, onde confecciona a maior parte de seus produtos. Ela fabrica o que se chama de "modinha" em Toritama. Ela se considera uma ótima vendedora e empreendedora de grandes ideias e visão. Foi ela quem primeiro colocou os manequins para fora da loja, para que os clientes vissem a roupa de perto, tocassem no tecido. Foi um sucesso. Recentemente, por conta da pandemia, o governo proibiu os manequins fora das lojas. Foi ela quem teve a ideia de contratar uma manequim viva, desfilando no corredor. A manequim agora não está desfilando porque colocou silicone. "Mas ela ganhou muito dinheiro comigo aqui". Segundo ela, é melhor fabricar modinha porque vende mais. As roupas se acabam mais rápido, ou seja, as pessoas compram mais, e também é possível variar mais os produtos, seja pelas cores, estampas ou modelos. Lane nunca vendeu tanto na vida como no ano da pandemia. Diz que foi melhor do que nos últimos finais de ano. Isso aconteceu porque ela tem um cadastro com os contatos de todos os clientes no whatsapp. E todos fizeram pedidos on-line. Lane é uma das empreendedoras que apostou na expansão do Parque das Feiras e comprou suas lojas ainda na planta. Hoje ela está feliz com o negócio, que se valorizou rapidamente, segundo ela.



Depois, fomos em busca de Seu Pedro, o dono do bazar de usados onde filmamos a feira do carnaval. Ele estava lá, muito tranquilo, bem humorado, apesar da fase difícil que está passando. Ele não viu o filme, mas seus sobrinhos de Recife assistiram e tiraram onda dele, dizendo que está famoso. Ele disse que trabalha todo dia, todo santo dia, de domingo a domingo fica ali sentado, vendo os carros passando. O movimento enfraqueceu muito. As pessoas não tem dinheiro pra comprar e ele não tem dinheiro pra comprar de quem quer vender. Mesmo sem movimento de compra e venda, ele prefere ir trabalhar do que ficar em casa. Não gosta de ficar em casa porque a mulher dele não gosta de nada que ele gosta e em casa ele não pode fazer nada. Não pode receber visita, ouvir música, conversar, beber... tudo que ele gosta, ela odeia. Então, ele sai de casa e vai trabalhar, porque se sente melhor ali. Perguntamos porque ele foi se casar com uma mulher que não gosta de nada que ele gosta. Ele disse que não sabe…



À tarde fomos à Vila Canaã, encontrar a família de Dona Maria, Mikael (que revelou que prefere ser chamado de Guga), Mikaele, Isabele, Dona Vera e Lorraine, o pessoal que participou do bazar e fretou uma toyota para viajar pra Maragogi, no filme Estou me guardando… A casa de Dona Maria é o que primeiro chama a atenção. Foi ampliada e pintada de lilás. A casa é própria dela, que reformou tudo, por dentro e por fora. Com o dinheiro do auxílio. Quando chegamos, estavam somente Dona Maria e Mikaele. Conversamos um pouco com elas, e em seguida caminhamos até a casa onde Mikael está morando com a esposa e a filha. Dona Maria contou que o movimento de trabalho está muito parado, mas confia que Deus vai dar um jeito em tudo. Disse que não conhece ninguém que pegou o Coronavírus e acredita que os números divulgados pela imprensa sejam falsos. Segundo ela, o prefeito ganha 9 mil reais para cada óbito de covid na cidade. Eu lhe pergunto como ela ficou sabendo disso, ela disse que "todo mundo sabe, todo mundo fala sobre isso". Diz que a secretária de saúde está com tornozeleira na perna, que tem muita corrupção e não dá pra confiar nos números oficiais. Pergunto a Dona Maria sobre a igreja e o pastor, se ajudaram o povo na pandemia. Ela disse que o pastor arrecadou alimentos na Vila Canaã e levou pra Caruaru. Ninguém sabe o que ele fez com os alimentos. Ela desconfia da honestidade do pastor. Eu pergunto como continua indo à igreja com esse pastor, ela diz que todo mundo tem seus defeitos.



Visitamos a família de Seu João, personagem do Estou me guardando… Estão todas e todos bem. Eder agora é namorado de Carol, vereadora. Juliana se casou e saiu de casa, Adriana está bem, Rozana estava trabalhando em Caruaru e dona Maria fazendo cocadas. As crianças cresceram e estão na escola. Seu João está bem e vai se vacinar na semana seguinte. Ele declama um poema sobre o Coronavírus muito interessante... Tentamos conversar com a família, foi difícil porque eram muitas pessoas falando ao mesmo tempo. Adriana comentou que o filme Estou me guardando… não mostrou o lado bom de Toritama, só a parte mais humilde, e pediu para que, nesse novo filme, a gente tente mostrar o lado bom da cidade. Ela relembrou a reportagem de Caco Barcellos sobre Toritama, que foi catastrófica para a cidade - até o prefeito caiu depois de ir ao ar. A família conta que perdeu as bancas da feira por conta da reforma do parque. Muita gente na cidade se sentiu injustiçada ao descobrir que as bancas era concessão e não propriedade delas. Hoje, onde antes ficavam as bancas de família de Seu João, funciona a terceira etapa do shopping.


No final do dia, encontramos Valderiza em uma sorveteria. Ela saiu da casa da mãe dela, um primeiro andar no centro da cidade, e trouxe suas últimas criações para nos mostrar. Uma camisa com dupla estampa e um chinelo personalizado. Conversamos um pouco, fazendo hora para o programa. Nesse tempo, muitas pessoas que passam na rua a cumprimentam. Valderiza é bastante conhecida na cidade. Um amigo dela, professor de artes na escola pública, para para conversar. Eles falam sobre política, comentam o decreto do governador que vai mudar os horários. Dali, partimos para a rádio, onde participamos do programa Cultura Viva, falando sobre o filme "Estou me guardando pra quando o carnaval chegar".



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