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  • PRIMEIRA FASE

Dia 3: 23.01.2021 | SÁBADO



Começamos o dia chegando à rua Surubim, uma das mais movimentadas na produção de jeans. A rua tem uma grande quantidade de lixados, facções e lavanderias, que em 2017 e 2018 empilhavam peças no chão e ocupavam o tempo dos jovens com muito trabalho. Procuramos o lixado de Sandro, onde os garotos trabalhavam enquanto ouviam a banda Racionais MC no filme "Estou me guardando pra quando o carnaval chegar".


Nesse sábado de manhã, encontramos uma cena bem diferente. Ninguém está trabalhando, nem ouvindo música. Duas garotas fazem as unhas em um banquinho baixo e o filho de Sandro carrega um bebê no colo. Nos outros lixados, o movimento também está tranquilo em comparação a três anos atrás. A lavandeira preferencial está aberta mas sem aquele volume intenso de trabalho. Alguns homens jogam dominó. Ninguém usa máscara na rua Surubim. Nós parecemos dois extraterrestres na cidade, com nossas máscaras e garrafinhas de álcool em gel a tiracolo.



Sandro conta que as pessoas falam com ele na rua, dizendo que está famoso, por conta do filme. Ele gostou bastante disso. Durante o lockdown, em 2020, precisou viver da ajuda da família e dos amigos, e teve que vender coisas que gostava muito para pagar as contas. Quando chegou o auxílio, foi um alívio, ajudou bastante, mas nem todo mundo conseguiu receber. Sandro conta que em Toritama a doença foi fraca. Não foi feito no Amazonas. Enquanto conversamos com Sandro, chega um dos garotos que trabalhava com ele em 2017, conhecido como Bruxo. Sandro conta que ele não trabalha mais lá. Agora, é eletricista em uma empresa fora de Toritama e só volta à cidade nos finais de semana para ver a mãe e os amigos.


Sandro conta também que no início do lockdown ficou totalmente parado, sem trabalho, e que gostou da convivência com a família. Para passar o tempo, ficava assistindo, ou ia pescar na barragem. A maior novidade é que Sandro agora é avô. Apesar do aperto que passou, ele planeja viajar para Japaratinga no carnaval, com a família. Ele foi pra lá no final do ano, quando a produção na cidade também parou por mais de uma semana. Sua maior preocupação no momento é que, se fechar novamente, o povo vai ficar sem nada, e acha que o governo não vai dar auxílio dessa vez.



Carol é a mais jovem vereadora eleita da história de Toritama, com apenas 24 anos. Seus pais vivem da produção de jeans. Sua mãe é negra e a família vive na periferia da cidade, em um bairro chamado Antão. É formada em Relações Internacionais com ajuda do FIES em Caruaru. Conversamos com ela sobre como foram as eleições em ano de pandemia e sobre a forma de fazer política em Toritama.


Carol se identifica como uma feminista interseccional, desde que leu Angela Davis. Seus valores de igualdade, aprendeu com a mãe. Foi eleita com 770 votos e deve sua eleição à comunidade LGBT, universitários, mulheres jovens e pessoas que contribuíram voluntariamente para sua campanha. Ninguém acreditava que essas pessoas iriam se juntar e eleger uma representante: é algo praticamente inédito em Toritama alguém ser eleito por ideias e não por dinheiro.


Carol acha que Toritama é uma cidade difícil para quem é jovem. Não tem curso técnico, nem superior, não tem transporte público. O moto-táxi custa 5 reais a corrida. Poucos jovens trocam o jeans pelos estudos, mas esse número está crescendo timidamente. Todos os dias, saem 15 ônibus da cidade para levar os estudantes para faculdades em cidades vizinhas.


Carol conta que a cidade é muito desigual. A maioria das pessoas que trabalha com costura só tira o dinheiro da sobrevivência. Tudo precarizado, sem seguridade social. Com a chegada da pandemia, a família dela foi passar o lockdown no sítio e voltou a cozinhar com lenha para economizar o dinheiro do gás. Por alguns momentos, ela acreditou que a doença ajudaria as pessoas a despertarem para a solidariedade e senso de coletivo, mas não sente que houve essa mudança coletiva.



Encontramos Pedro Denis, que foi personagem do filme "Estou me guardando pra quando o carnaval chegar", além de integrar a equipe como assistente local de produção. Ele conta que foi o primeiro caso de Coronavírus da cidade, e publicou tudo nas redes sociais. Sofreu preconceito por isso, e foi desacreditado por muita gente. Hoje ele estuda educação física e trabalha para a prefeitura no departamento de Assistência Social. Sonha em montar seu próprio centro de treinamento, sua academia de ginástica em Toritama. Hoje, ele concilia o trabalho no CRAS com os estudos e ainda dá aulas como estagiário na academia do irmão mais velho.


Pedro conhece muita gente que morreu de covid, mas nunca teve medo da doença, nem quando foi hospitalizado. Ele conta que, na cidade, nem metade das pessoas usa máscara, ou álcool em gel. Já em Caruaru, o povo é mais cuidadoso. Ele conta que até hoje não recuperou o olfato completamente. Segundo Pedro, a cidade ficou deserta no lockdown, porque o povo ficou com medo do desconhecido. Foi estranho de março a maio, mas em junho o pessoal começou a furar. Tem trabalhado e estudado muito, e não tem tempo pra nada. Diz que consegue ver o filho na hora do almoço. O sonho dele é não trabalhar para ninguém, ser dono do seu negócio. Reclama que Toritama é uma cidade cada vez mais cara. O aluguel é caro, alimentação, moto, terreno, tudo, por isso as pessoas precisam trabalhar tanto pra viver aqui. Ele vê com desconfiança o crescimento do Parque das Feiras.

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