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  • SEGUNDA FASE

Dia 2: 26/02/21 | SEXTA-FEIRA



No segundo dia, fizemos alguns registros da cidade em expansão: muitas obras por todo lado, casas, galpões, lojas, estradas. Algumas placas anunciam a "Nova Feira" de Toritama, com o projeto em 3D das novas instalações em construção. Outras placas indicam a chegada de lojas de motos na cidade.



Fomos em direção à casa da escritora, poeta e vendedora de cocadas Dona Maria Ozana. Antes de chamá-la, conversamos com o vizinho, onde funciona uma loja de materiais de construção. Ele não viu o filme, nem ouviu falar. Em frente às casas, ocupando quase metade da rua, um caminhão gigantesco, carregado de sacos de retalhos de jeans. Um homem aparece por ali: é o dono do negócio, mas não do caminhão. Ele explica que toda aquela sobra de tecido vai para a reciclagem, virar jeans de novo e voltar pra Toritama. A reciclagem acontece na Bahia. Ele conta que antigamente esse material era doado pelas facções, mas hoje, é vendido. Ele compra e revende para a empresa de reciclagem. Reclama que o movimento caiu muito com a pandemia, mas que precisa ir embora correndo para resolver coisas.



Depois que ele saiu, nos dirigimos à casa de Dona Maria Ozana. Por sorte, ela estava em casa e nos convidou para entrar. A casa simples e bonita, toda pintada de verde e repleta de quadros, fotografias e livros. No meio da sala, um cavalete com uma tela com uma pintura não terminada de paisagem. Ela explica que é a filha caçula dela que gosta de pintar. Não é profissional, mas está aprendendo e gosta de pintar. A filha dela está dormindo, porque virou a noite trabalhando com jeans.


Dona Maria Ozana nasceu em Toritama e cresceu solta pelas ruas da cidade. Tem memórias muito vivas de nadar e brincar no Rio Capibaribe. Ela tem 3 filhos e uma filha, e criou todos sozinha, vendendo cocadas nas ruas de Toritama. Ela gosta muito de andar pela cidade e sentir o vento fazer um carinho na pele. Enquanto caminha, vai olhando as crianças e cuida de todas como se fossem suas. Maria Ozana conta que, quando começou a escrever, já depois de ter criado os filhos, nos anos 2000, sentiu uma alegria e uma realização intensas. Tem vários poemas, contos e crônicas escritos e ela mesma imprimiu uma coletânea de seus textos, muitos deles inspirados em sonhos, visões e intuições que sente. Por conta disso, sofreu muito preconceito religioso e até mesmo da família. Muitas pessoas a rejeitaram por conta do livro. A família dizia que ela estava esquizofrênica e a chamava de bruxa. Foi horrível. Maria Ozana não se tornou uma pessoa amarga, ao contrário. Alguns de seus textos serão publicados pela editora Flip neste ano de 2021.



À tarde, começamos visitando a lavanderia Céu Azul, para saber como está o negócio da máquina a laser. Se foi ampliado, se compraram muitas máquinas para substituir as pessoas. Falamos com Elias, o encarregado da operação. Elias é agitado e chega dizendo que não tem muito tempo para conversar com a gente. Pergunto se posso gravar nossa conversa, ele responde que não. Pergunto pela laser, ele diz que está quebrada, mas que a máquina não é mais aquela que filmamos em 2018. Foi trocada por uma nova, mais moderna e mais rápida. O problema é que essa máquina deu defeito poucos meses depois que foi comprada. Elias conta que a peça que precisa ser substituída custa 400 mil reais, mas que já está sendo providenciada. Elias diz que, com a pandemia, o movimento caiu muito, e a lavanderia está trabalhando com 60% de sua capacidade. Na época que filmamos, trabalhava a 100%. A lavanderia não fecha. Funciona 24 horas por dia. Agora que o movimento caiu, estão fechando no domingo. Ele conta que, na lavanderia, se gasta 100 mil litros de água por hora, mas com um método sustentável de produção que estão implantando, vão economizar mil litros de água por hora.


Elias é mais um imigrante que veio tentar a vida em Toritama. Veio de mais longe que a maioria: Goiás. Já foi vendedor de quase tudo, já foi militar, e começou no ramo das lavanderias ainda em Goiás, na lavanderia de Leandro e Leonardo. A convite de Célio, dono da lavanderia Céu Azul, saiu de Goiás para Toritama, para trabalhar na lavanderia, onde se mantém até hoje. Ele gosta muito de morar em Toritama, e a coisa que mais gosta de fazer na vida é trabalhar. Na pandemia, não conseguiu ficar em casa. Todos os dias ia até a lavanderia, mesmo sem funcionar, porque tinha o hábito de ir todos os dias ao trabalho. No domingo, ele fica em casa com os filhos e a esposa. Diz que tem uma casa boa, vive no conforto, mas não consegue tirar férias porque não gosta, é viciado em trabalho. Não viu o filme "Estou me guardando pra quando o carnaval chegar", segundo ele, porque não teve tempo.



Fomos à Rua Surubim para encontrar Sandro e os garotos que trabalham com ele. O movimento está parado em plena sexta-feira à tarde. Algumas pilhas de jeans no chão, de trabalho já finalizado, esperam que o "patrão" venha buscar. Sandro está sempre sorrindo, de bom humor e fala gentil, mas reclama que a situação está muito difícil. Para ele, só vale a pena trabalhar se for um volume grande de serviço, porque ele tem muitas contas a pagar. Aluguel, energia, material… Pergunto o que fez no carnaval, ele diz que viajou para Japaratinga. Todo mundo está bastante bronzeado no lixado de Sandro: ele, sua esposa Heloísa, o filho, a nora Kari, o neto e uma parente de Alagoas, que nós não conhecíamos. A família toda é de Alagoas. Sandro planeja ir com a família aproveitar o domingo na barragem de Taboca. Disse que nós podemos ir também, seguindo o carro dele. Perguntamos qual música estão ouvindo agora: brega funk de Recife e passinho.



Depois de falar com Sandro, nós entramos no galpão para conversar com as mulheres, que estão matando o tempo sentadas numa mesa de madeira. Eu pergunto se já largaram do serviço, elas me respondem que não tem serviço, tá muito parado. Eu pergunto se estão gostando de ter mais tempo livre, elas respondem que não, porque precisam pagar as contas e o dinheiro não dá. Heloísa conta que a pandemia está sendo muito ruim para elas. Disse que, no lockdown, quando tudo fechou, a família se apertou muito - o que salvou foi o auxílio e não a generosidade das pessoas. Ela conta que a dona do galpão cobrou o preço cheio do aluguel, não aceitou a negociação e manteve as multas por atraso: 50 reais por dia. Elas estão preocupadas com o futuro, e acham que a tendência é piorar o movimento, fechar o comércio de novo. Nenhuma delas pegou a doença. Ivanete reclama que o presidente quer oferecer um auxílio de 250 reais por mês. Esse dinheiro não dá pra nada. Só o bujão de gás custa 105 reais em Toritama. E ele quer tirar dinheiro da saúde e da educação para pagar esse auxílio. Ela está indignada.

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