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  • PRIMEIRA FASE

Dia 1: 21.01.2021 | QUINTA-FEIRA



Ao chegar a Toritama, a primeira coisa a fazer foi dar uma volta de carro pela cidade e observar o movimento das ruas, das facções e a circulação das pessoas. Poucas usam máscaras. O comércio funciona normalmente. Há novas lojas e um hospital de campanha na avenida João Manoel da Silva, onde antes funcionava uma escola. Ali também avistamos uma fila enorme, que percorre boa parte da avenida até chegar à CAIXA. A aglomeração se deve ao recebimento da última parcela do auxílio emergencial oferecido pelo Governo Federal. À primeira vista, pouca coisa mudou na cidade. As pilhas de jeans na porta das facções continuam por lá e o ritmo acelerado da vida não parece ter mudado muito.



Chama a nossa atenção uma senhora limpando peças de jeans no sofá da sala, com a porta da casa aberta para circulação de ar. Dona Marizete e o marido trabalham na etapa final da produção, limpando as peças, um trabalho totalmente manual, feito com ajuda de uma tesoura. A TV está ligada em algum canal religioso, em alto volume.


Marizete nos convida para entrar e conversar. Ela, o marido, o irmão e a cunhada vivem da produção de jeans. Durante o lockdown, passou 3 meses parada, sem serviço e sem dinheiro. Com a queda da renda, teve que entregar a casa que alugava e vir morar com a mãe. Foi difícil, mas além do auxílio emergencial, que ajudou muito - apesar da demora -, teve o apoio da mãe, aposentada que sustentou a casa e boa parte dos filhos nos meses mais difíceis. No lockdown, Marizete passava o tempo todo cuidando da mãe, comendo e assistindo tv. Ela conta que ninguém na família passou fome, mas sabe que muita gente enfrentou sérias necessidades. Marizete contou que na fase de lockdown, muita gente ficou deprimida e teve gente que até se matou por conta de dívidas. Segundo ela, alguns empresários ricos da cidade ajudaram, doando cestas básicas, mas não ficou sabendo de nenhuma ajuda de igrejas. Hoje, o trabalho já voltou ao normal. Tem bastante serviço para ela e o marido. Os irmãos também trabalham com jeans, em uma facção improvisada nos fundos da casa. Marizete tem medo que a situação piore depois do carnaval e o Governo precise fechar o comércio novamente. Ela defende que a feira do domingo é muito importante para garantir o sustento de sua família e de muitas famílias da cidade. No entanto, as notícias que viu na tv sobre Manaus, da falta de oxigênio nos hospitais, a assustam.



Caminhando pelo centro da cidade, conhecemos outra família trabalhadora do jeans. É a família de Verônica. Ali, todas e todos trabalham juntos na produção de jeans. O marido de Verônica é quem nos recebe com empolgação para explicar como é o processo. Ele tem orgulho do trabalho: costura as palas e as bandas da parte traseira dos shorts. O genro de Verônica veio do Pará comprar jeans e agora vive temporariamente na cidade, depois que se apaixonou por sua filha Marta. Ele é estudante de medicina em uma universidade da Bolívia, onde o casal estava quando a pandemia começou. A mãe ficou muito nervosa com a filha distante no início da pandemia, bem na hora do decreto do lockdown. Perguntamos do que eles têm mais medo: do comércio fechar novamente. “Sem isso - o trabalho no jeans - ninguém vive aqui”, “sem isso aqui a cidade acaba". Na família, todos contraíram a covid-19. Não foram testados porque na época que tiveram sintomas, faltavam testes nos hospitais. O pai acredita que não adianta se cuidar porque todo mundo vai pegar de todo jeito. Ele conta que, no começo, todo mundo em Toritama se trancou em casa, com medo, mas não aguentaram muito tempo porque precisavam trabalhar para sobreviver. Verônica diz que não houve uma solidariedade coletiva, era cada um por si. Ela acredita que a população vai ter que aprender a conviver com o vírus como convive com a gripe, a chikungunya etc. Perguntamos o que vão fazer no carnaval: nada. "Quem tem dinheiro para viajar? Estamos vivendo no aperto."



Chegando ao Parque das Feiras, onde ocorre semanalmente a feira do jeans, descobrimos que muita coisa mudou. A antiga Rua do Jeans, que funcionava normalmente como via pública durante a semana e só fechava aos domingos para abrigar as bancas da feira, está permanentemente fechada com bancas de cimento fixas. Dentro do Parque das Feiras, a terceira etapa do empreendimento foi inaugurada, ampliando incrivelmente o tamanho do centro de compras. A nova etapa tem mais aparência de shopping, com uma praça de alimentação, lojas de marcas consagradas como a Rota do Mar e pé direito alto. Ainda há muitas lojas desocupadas, mas percebe-se que a ocupação de novos empreendimentos já começou. Há uma saída nova para a parte de trás do prédio, onde agora também funciona um estacionamento. Acima do prédio, uma estrutura de ferro verticalizada aponta para a construção de um projeto ambicioso.



Em plena pandemia, é insólito perceber o crescimento de um centro de compras que funciona aglomerando pessoas de todo o Brasil para comercializar roupas. Existe demanda para tanto crescimento? Qual será o tamanho desse projeto? Chama muita atenção também a quantidade de funcionários trabalhando na fiscalização do espaço. Várias pessoas de uniforme nos abordaram oferecendo ajuda. Na parte de trás, onde agora tem o estacionamento com vista para os morros, há um estranho e bonito cemitério de bancas de madeira. Onde se lê os nomes dos donos e donas dessas estruturas, que provavelmente serão substituídas algum dia por bancas fixas de cimento.



Depois, fomos até o bairro Novo Coqueiral, onde vive a família de Leo, personagem do ”Estou me guardando..." Chegando lá, fomos bem recebidas como sempre, mas encontramos um cenário bastante triste. Valinda, irmã de Leo e esposa de Natalício, nos conta que a situação está muito difícil para a família. Leo está trabalhando com outro irmão deles, que abriu um lixado na cidade. Ela, Natalício e as crianças estão em casa, sem trabalhar. O filho mais velho deles teve um bebê, que vive com a família.


O sentimento de Valinda é de desesperança. Ela, Natalício e as filhas trabalhavam em casa limpando peças desde que Natalício saiu do lixado por problemas de saúde. Agora, há pouco trabalho. A vizinha de baixo tem uma montanha de peças e logo ao lado tem uma facção onde há trabalho, mas na casa de Valinda estão todos desocupados. Valinda conta que passou necessidade e houve momentos em que não sabia o que fazer para dar comida aos filhos e à neta. Uma conhecida a ajudou, passando o contato de um vereador, que fazia doação de cestas básicas no bairro. O auxílio demorou muito para sair e, até conseguir receber o dinheiro, a família passou por "poucas e boas". A situação só melhorou quando a feira voltou a abrir, mas não voltou ao movimento de antes. O lugar que Natalício e Leo trabalhavam fechou. Leo voltou para Paudalho no começo da pandemia e só voltou no fim do ano, para trabalhar com o irmão, que abriu um lixado na cidade.


Natalício conta que só limparam 46 peças no dia anterior e não tiveram mais serviço. Ele sonha em comprar uma máquina de 4 mil reais para limpar peças. A máquina faz o trabalho de 4 pessoas e com muito mais rapidez, ele conta. O problema é que não tem demanda, não tem serviço, então ele fica inseguro de fazer esse investimento. Apesar de todas as dificuldades, Valinda tem confiança de que tudo vai ficar bem porque "Deus é grande, tudo passa". Na fase mais difícil, eles não tinham nem dinheiro para comprar água (em Toritama as pessoas precisam comprar água de carro pipa para abastecer a casa). Iam buscar água em um poço e vinham carregando. Venderam o carro velho que tinham, mas já conseguiram comprar outro, depois que receberam os auxílios. Desde agora, o movimento já está fraco porque no carnaval para tudo. A cidade vai ficar vazia. Queriam muito passear, mas não terão condições.

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